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terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Aulas de xadrez no escurinho do cinema


Prefácio de Letícia Bahia Diniz


Esse texto não é meu. Foi escrito pelo meu professor de xadrez, que além de professor de xadrez, é meu irmão. Transcrevo a seguir a troca de SMS na qual isso tudo começou: 

Guilherme Bahia: Peroba, não tô vendo o 10 pérolas avisar que hoje é aniversário da morte do Humphrey Bogart. Ainda dá tempo!

Eu: Mas eu não saberia fazer nenhum comentário sobre ele...

GB: Diz que ele era um bom enxadrista, razão pela qual Casablanca tem a cena de xadrez mais rica da história do cinema.

GB: Lança um desafio pro teu público dizer quais são essas metáforas. Interativo! 2.0!

Eu: Po, eu fiquei bem afim, mas vasculhei a internet e não consegui achar a tal cena... Por que você não escreve um texto sobre o xadrez no cinema?


***

A Defesa Francesa (Guilherme Bahia Diniz)

Os peões pretos são a linha Maginot. A linha Maginot era a defesa da França contra a invasão da Alemanha. Mas a linha Maginot parava na Bélgica, bem ali onde está o fim da linha de peões pretos. E é pela Bélgica que o cavalo branco ataca. O cavalo branco está contornando a linha Maginot como a Blitzkrieg contornou a linha de peões pretos em 1940.

Essa belíssima metáfora do xadrez foi levada ao cinema por Humphrey Bogart em Casablanca, filmado quando a Alemanha Nazista dominava toda a Europa e parecia invencível. Bogart era um grande enxadrista e soube usar as nuances desse jogo fascinante para fazer a posição no tabuleiro espelhar a guerra na Europa, da qual a cidade de Casablanca era uma porta de fuga. 

A foto reproduz parcialmente a posição do tabuleiro numa cena do filme. Quem joga xadrez já pressentiu que a metáfora vai mais longe, porque a posição das pretas parece uma abertura chamada Defesa Francesa. Parece e é. Nada disso é fácil de perceber, porque na cena o tabuleiro aparece pouco e de um ângulo não muito favorável. Quem nos socorre é o excelente artigo A French Defense From Casablanca, que conseguiu deduzir a posição das peças (o link do artigo também mostra a cena, que é difícil de achar no YouTube).

Seria a extrema sutileza parte da genialidade? Seria demais querer a Defesa Francesa no nome do filme? Fico a lembrar de um outro, que teve “defesa” no nome. A Defesa Luzhin é sobre um gênio do xadrez atormentado por distúrbios mentais. A história original foi escrita por Vladimir Nabokov, que nas horas vagas compunha problemas do tipo “mate em tantos lances” ou “jogam as brancas e ganham”. 

A Defesa Luzhin não existe no xadrez, mas existe dramaticamente nos conflitos desse personagem com o mundo. Luzhin era um homem esmagado pela genialidade, nas palavras do próprio Nabokov. A defesa dele é uma fuga, tão dramática e bela que sua sequência de lances mais genial (mostrada no filme!) foi executada por sua noiva, que sequer sabia jogar xadrez, porque ele morreu depois de escrever a sequência num papel. Se jogasse xadrez com a Morte, como fez o protagonista de O Sétimo Selo, Luzhin poderia vencer. Mas provavelmente preferiria fugir. 



Casablanca também é sobre fuga. Não uma fuga de si mesmo, mas de uma nova realidade, desesperadora, que havia engolido a Europa. Os franceses haviam fugido em Dunquerque como exército encurralado, e fugiam em Casablanca como órfãos de um mundo que desmoronava. “Sempre teremos Paris”, disse Rick a Ilsa. Mas como, se a Defesa Francesa falhou?




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quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Elas nunca se entenderão (e se entendem todo dia)


- Mas então quer dizer que a Fefê é lésbica, filha?
- O que foi que eu acabei de dizer, mãe?
- Que ela é lésbica, que beijou uma moça!
- Eu disse que a Fefê está namorando a Ana. Ponto.
- ... não entendi...
- Mãe, ela está namorando a Ana, antes namorou o Paulo e sei lá quem vai namorar depois!
- Mas então a pessoa vira lésbica? Não nasce lésbica? E depois pode virar ex-lésbica?
- Mãe, por que é que você tem que colocar etiqueta em todo mundo?
- Etiqueta? Estou confusa... lésbica não é mulher que gosta de mulher?
- Como você é simplista.
- Filha, estou tentando entender! Não sei como funciona! É uma coisa que a pessoa escolhe?
- Escolhe?! Escolhe o quê, mãe???
- Se vai ser gay, se vai ser lésbica! Não falam que é a opção sexual da pessoa?
- Vixe, mãe...
- Sério, filha, me explica! O que é ser lésbica?
- “Lésbica” é um rótulo, mãe, não serve pra nada.
- Filha, etimologicamente, “lésbica” vem de “Lesbos”, a ilha grega em que moravam as Amazonas...
- Mãe, pára!
- O quê? O que foi?
- ...
- Tá bom, tá bom. Deixa eu pensar... O Ricky Martin. O Ricky Martin é gay, não é? É sim, eu lembro quando ele saiu do armário, deu na TV.
- E o Ronaldo, mãe? O Ronaldo é gay?
- O Ronaldo?
- É, mãe, o Fenômeno.
- O Ronaldo é casado! Pai de família!
- Lembra daquela história com os travestis?
- Ai... teve isso, né...
- Teve, mãe, teve isso.
- O Ronaldo é gay, filha?
- Mãe, o Ronaldo é o Ronaldo! Casou, teve filho, separou, saiu com travesti – ou não, sei lá – depois casou de novo... A Fefê é a Fefê e eu sou eu!
- Você está dizendo que gay não existe? Nem lésbica?
- Ai, mãe, chega. Fica aí com as suas etiquetas. Tô saindo, vou encontrar o pessoal.
- A Fefê?
- Tchau, mãe.

***

- Filha...
- Oi, mãe?
- Eu queria te dizer uma coisa...
- Fala, mãe.
- É sobre aquela conversa que tivemos no outro dia...
- Que conversa?
- De gay, de lésbica...
- A conversa das etiquetas?
- É... isso...
- Mãe, desembucha.
- Filha, eu quero que você saiba que a mamãe te ama muito e vai te amar pra sempre, não importa o que aconteça. E você pode me contar qualquer coisa que a mamãe vai sempre sempre te apoiar, tá bom?
- Nossa, mãe, pirou, hein?
- Filha, espera!
- To saindo, mãe, vou encontrar uma amiga.
- Uma amiga? A Fefê?
- Tchau, mãe.




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quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Bolero de Ravel - Sergiu Celibidache

Fiquei extasiada quando vi o Celibidache pela primeira vez. Sigo em êxtase a cada vez que o revejo, e reencontro o mesmo fascínio nos olhos dos amigos pra quem já tive o prazer de mostrar essa imensa pérola. 

Muitos me perguntam por que eu ainda não tinha postado esse vídeo. Não tenho resposta para isso. Simplesmente não sentia que fosse a hora. Ainda não me era possível escrever a apresentação digna. Quem acompanha o blog sabe que não se trata apenas de adicionar mais um vídeo. Não, eu me compartilho um pouco através de cada pérola. Acho que estávamos amadurecendo, eu e a pérola.  

Eu tinha pensado em escrever uma breve apresentação biográfica desse incrível maestro. Mas não é isso que importa. O Celibidache não está no blog pelos cargos importantes que ocupou nas mais prestigiadas orquestras da Europa, nem pela profundidade azul-escuro de seus conhecimentos musicais. Na verdade, o deslumbramento está no oposto disso. Ele está aqui pela entrega comprometida a cada nota, pela permeabilidade ao invisível, por algo que está ao alcance de todos, mas que não se ensina e não se aprende: se é.  

Uma vez assisti a uma entrevista em que lhe perguntaram: "como você faz isso?". Com seu inglês macarrônico do leste europeu, o maestro respondeu: "you don't do anything. You let it envolves you".


Sergiu Celibidache conduz a Sinfônica Nacional Dinamarquesa, 1971
  

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terça-feira, 23 de outubro de 2012

A bunda do Dali


Contou-me uma professora de História que brasileiro gosta tanto assim de bunda por causa da escravidão. É que os homens de cor clara queriam muito distrair-se com alguma negrinha, mas viravam-nas de costas pra deixar o coito mais impessoal. Faz sentido, já que as teorias evolucionistas percorrem o caminho inverso pra explicar o surgimento do amor: na medida em que a nossa postura foi ficando mais ereta, inventamos a posição sexual que permite o olho no olho e que é privilégio exclusivo da espécie humana. E quando nos olhamos nos olhos... Razoável então supor que os portugas, muito bem casado com suas bigodudas de mesma cor, expressassem seu interesse meramente carnal reposicionando suas negrinhas na posição primitiva. E foi assim que a bunda garantiu seu lugar na vista panorâmica do brasileiro e entrou para o panteão dos desejos nacionais.

Infelizmente a hipótese da minha professora não é verificável. Mas não importa. Ela pode não estar certa quanto ao porquê, mas ninguém discute o poder de uma bunda, que eu mesma pude verificar essa semana.

Em 1925 Dali pintou Moça à Janela, possivelmente a minha tela favorita dele. Acho de uma poesia ímpar que ele nos mostre não a moça, mas o que a moça contempla. A imagem é um convite para a abertura, para ampliar olhares e perder-se no horizonte. Já há alguns anos penso em colocar um pôster da Moça no meu consultório de Psicologia. São muito parecidos os convites, o lançar-se do Dali e a descoberta do novo que eu proponho aos meus pacientes.

Dali e Psicologia


O Dali ainda não foi parar nas minhas paredes, mas foi a imagem que escolhi para a página inicial do meu site, que venho construindo nas últimas semanas. Terminei o esqueleto e encaminhei o link a alguns queridos, pedindo opiniões honestas sobre suas impressões.

Foi chocante. Eu havia me esquecido do que me contara a professora de História do colegial, e fiquei perplexa com o comentário geral sobre o Dali. “É muito bonito”, disseram, “poético e sugestivo... mas que bundinha, hein?”! Na primeira vez eu relutei. A segunda me chegou com explicações psicanalíticas de alto calibre, e eu comecei a suspeitar que o convite do Dali fosse outro. Contei o ocorrido ao meu irmão e ele deu-me o golpe de misericórdia: “eu não queria dizer nada, mas foi a primeira coisa em que pensei”.

Absolutamente resignada, recomecei minhas buscas pela imagem ideal. Dá-lhe Google, cheguei em O Livro Árvore, outro Dali. Tem também janela, amplidão de horizonte, azul que descansa a vista, mas a imagem ideal, a minha imagem ideal, eu já encontrara e era a tanajura do Dali. 


Depois da angústia veio a decisão. Munida de minha versão mais castradora triunfei sadicamente sobre os portugueses, sobre os psicanalistas e sobre o meu irmão; em nome das negrinhas, das fêmeas dos animais e da Moça eu me vinguei: cortei a bunda do Dali! E pronto, está inaugurado o meu site! 



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sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Maria Bethânia - Jeito estúpido de te amar

A Bethânia me causa esse negócio que não cabe no peito, na voz, na palavra ou no palavrão. Não sei onde ponho as coisas que ela diz.

Deixa ela olhar nos teus olhos e ouve. Entendo, entendo sim gente que não gosta de Maria Bethânia. É muita inteireza, muita densidade dentro de cada palavra. Ela me solicita em todas as possibilidades da minha emoção, e, porque sou dramática, eu gosto e cedo. Gente metódica, engenheiro, pragmáticos, práticos, calculadoras, corretores de imóveis e da bolsa: esses não gostam da Bethânia. Meu irmão mais velho, tão amado, não pode desfrutar da Bethânia, porque é economista e alega que ela grita muito. Não entende, ele e todos os outros, que tem hora que é de grito e, então: grita-se!

Deixa ela olhar nos teus olhos e ouve.  






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quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Alice e a Lagarta - Disney

Transformações. Quem não as quer, quem não as teme? Gosto por demais desse assunto. Gosto tanto que sou terapeuta há quatro anos, e há mais tempo ainda sou paciente. Acompanhar a mudança, a mutação, a metamorfose é para mim um processo de beleza comparável ao desabrochar de uma flor. Um pouquinho mais bonito, porque a rosa não sabe que é rosa nem tampouco intenciona o veludo e a cor intensa de suas pétalas. É verdade que a rosa não sofre por deixar de ser botão, mas, coitada!, ela não pode olhar-se no espelho e sentir o gozo de ser rosa.

Dito isso, dou a palavra à Absolen, a lagarta que os estúdios Disney levaram ao cinema em 1951 e em 2010. Absolen sabe o que é metamorfose. Que propriedade essa dona tem pra falar de mudança! Vamos ouvi-la!

   


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quarta-feira, 16 de maio de 2012

Saudade pela boca

Faz frio e estou tomando chocolate quente. Chocolate quente de verdade, com um pedaço de chocolate de verdade, bem escuro e bem brilhante.  Hoje de manhã no hospital em que eu trabalho um pessoal do Starbucks estava oferecendo café e uns mini pedacinhos de brownie. Comi uns dez. Frio é assim mesmo: a gente fica com vontade de comer, de ficar dentro de casa e de ficar junto.

Quando eu era pequena ia todos os domingos à casa da minha avó paterna. Normalmente os adultos diziam que lugar de criança "era lá fora", no quintal, mas às vezes – imagino que no frio – fazia-se exceção e as crianças iam pra cozinha fazer biscoito de nata. Veja, quando eu digo “as crianças”, estou me referindo ao sem fim de netos de uma mulher que teve catorze filhos. Todas as manhãs ela fervia o leite (muito leite) e pouco a pouco ia juntando a nata com que depois os netos faríamos biscoito. Eu não tenho muita lembrança da confecção da massa – talvez fossem os adultos e as crianças mais velhas quem cuidassem dessa etapa – mas depois eram metros e metros de massa aberta, e aí era a hora de a criançada liberar a criatividade, porque a massa de biscoito virava escultura. Lá na casa da vovó Alice tinha forminhas de todos os formatos possíveis, mas o legal mesmo era pegar a faca e recortar um biscoito único, personalizado! O biscoito mais bonito que eu vi foi um porquinho que uma das tias, a Vana, fez. Tinha rabinho de porquinho, focinho de porquinho e corpinho roliço, em forma de barril. As fornadas iam deixando um cheiro quente inebriante pela casa toda, as crianças loucas pra ver o resultado final das obras de arte. A Vana deixou e eu comi o porquinho dela.

Tinha também o pão da Bel. Acho que a Bel nem sabe que é assim que eu me refiro ao pão dela. Era tão legal amassar o pão da Bel! Tinha que sovar mesmo, meter a mão com uma força que na época eu não tinha! Será que meu irmão do meio se lembra de nós dois arremessando o pão da Bel contra a bancada? Depois, mais um cheiro inebriante, e como era bom comê-lo pelando, a manteiga derretendo já quando a faca se aproximava da fatia fumegante! Fim de semana de frio, quando eu ficava em casa, sempre pedia pra minha mãe: “mãe, vamos fazer pão da Bel?”.

Na casa da minha avó materna era diferente. Ela se chamava Maria de Nazareth e detestava quando algum desavisado via seu nome no cheque e a chamava de “dona Maria”. Ela nunca cozinhava, mas era meticulosa e detalhista que só, de modo que a casa dela também tinha suas iguarias. Eu gostava muito do suflê de nozes, mas bom mesmo era o bom-bocado. Eram pequenininhos, não como esses enormes que a gente vê na padaria. E outra, os bom-bocados da minha avó não levavam coco, e eu sempre tive uma aflição danada do barulhinho que faz quando a gente mastiga coco. Por cima do bom-bocado ficava aquela casquinha dourada de queijo ralado, e por dentro era aquele não-sei-explicar que derretia na boca! Eu e minha mãe comíamos uns dez, quinze cada uma. Se tivesse mais, comíamos mais.

Aqui em casa tem a receita do bom-bocado, do suflê de nozes, do biscoito de nata, do pão da Bel e de outras receitas de família. Será que um dia vou voltar a assar uma fornada de biscoito de nata? Será que vai ter graça, o gosto sem os personagens em volta? Será que todas essas comidinhas de família são realmente tão gostosas quanto me dizem as lembranças, ou o sabor se mistura com o afeto? Quando eu tiver meus próprios filhos talvez essas receitas acordem, talvez venham outras. Grande sacada dos comerciais de tempero, arroz e margarina essa coisa de mostrar a cozinha como cenário de tanta afeição. Um bom prato de comida de fato pode ser uma declaração de amor.

Eu tenho saudade dos sabores da minha infância. Comer com o pensamento não é a mesma coisa.



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terça-feira, 17 de abril de 2012

O bizarro desaparecimento de uma cachorrinha com nome de fruta ou Como conheci o simpático submundo do meu bairro

É terça-feira e são cinco horas da manhã. O pobre coitado que passa no Santana caindo aos pedaços quase não acredita na moça que caminha em direção à esquina. Ele pensa que tirou a sorte grande e já desacelera pra começar as negociações, mas ela olha pra ele com desconfiança, faz meia volta e desiste de plantar-se na esquina. O homem vai embora resignado com a perspectiva de mais um dia de labuta e – como se não bastasse – ressaca.


***

Domingo à noite o pós Carnaval da moça ganhou ares de infância quando chegou a surpresa: quatro patinhas totalmente despreparadas para equilibrar o corpinho roliço de apenas 43 dias. A cachorrinha chamou-se Graviola, pois a menina que morava dentro da moça achou fofo, embora muitos tivessem tentado dissuadi-la da escolha argumentando que o nome era muito grande.
Até a moça ficou cansada, mas a menininha não queria senão apertar, apertar, apertar. Ela estava explicando à Graviola que sua razão de ser era fazer aquela criança feliz – função que a cachorrinha desempenhava com maestria.
Finalmente a moça conseguiu levá-las – a menininha e ela própria – pra dormir. Na segunda-feira elas teriam de acordar particularmente cedo, pois a moça tinha reunião às sete e meia da madrugada.

Segunda, seis horas da manhã veio a constatação trágica de que a Graviola desaparecera. O avô dela – também pai da moça – já procurara em todo canto, inclusive na rua, do outro lado dos altos muros que cercam a casa da família. Ele já colocava as meias e os sapatos, resignação de segunda-feira e de Graviola, quando a moça, inconformada, resolveu ela mesma iniciar as buscas pelo bairro.

Do outro lado dos altos muros que cercam a bela casa da família as moças que não têm família trabalham dia e noite pra pagar o aluguel do quartinho da espelunca. Ainda bem: não fosse assim, não estaria na esquina a Rose. A Rose tem três filhos pequenos e um pai que deixou de ser taxista porque virou cadeirante, mas a própria tragédia não a impediu de ficar profundamente comovida com o drama da menininha que perdera a cachorrinha. A Rose tinha visto a Graviola. Ali mesmo na esquina, brincando serelepe com os passantes que começavam suas segundas-feiras. Minutos antes de a moça aparecer, revelou a Rose, uns rapazes que passavam por ali todo dia levaram a cachorrinha. Mas levaram pra onde, meu deus?! A Rose não sabia.

***

Terça-feira, quinze para as cinco da matina o despertador toca, como se precisasse. Moça e menininha pulam da cama. Era quase um tirar o pai da forca. Vestem-se às pressas, a moça um pouco preocupada com o que vestir em tão pitoresca ocasião.  A primeira coisa que aconteceu quando ela pisou fora de casa foi a sua preocupação se justificar. Ela não tinha medo de violência física, mas, ah!, que nojento ser olhada daquela maneira por aquele homem também nojento! Fez meia volta, esforçou-se ao máximo para parecer moça de família e quando o nojento foi embora voltou a caminhar na direção da esquina somente para constatar, desolada, que a Rose não estava lá. Porque era a Rose a única pista do desaparecimento da Graviola, ela esperou. Na esquina, de madrugada, em situação inédita pra moça que se preze.

Logo um carro encostou na esquina e a Rose desceu. A moça bem imaginou que ela devia estar trabalhando, pois na noite anterior ela havia jurado que todos os dias exercia o ofício até seis da manhã naquela esquina. Juntas elas puseram-se a esperar os supostos sequestradores da Graviola. Como eles não passavam nunca, a moça ficou sabendo dos três filhos da Rose, do acidente que paralisara seu pai, dos seiscentos reais de aluguel, do ex-patrão, etc. Elas caminhavam alguns metros, a Rose com dor no pé e com o chinelo de dedo arrebentado.

Lá pelas tantas a moça foi pra casa chorar no colo da sua mãe porque os suspeitos não passaram. A mãe, é claro, sentia pela filha. Muniu-se de sua calma e maturidade e foi para a rua. Andou para além da esquina da Rose, que não estava mais lá, e deparou-se com um ponto de táxi. Contou aos motoristas o pranto da filha, e eis que surge uma nova pista. Havia sim uns moços, mas não era todo dia, era toda segunda-feira. Pegavam a tal da van e iam para a tal da construção pegar no tal do batente durante toda a semana. E não é que um dos taxistas lembrava o nome da empresa?

A mãe só foi acordar a moça, que voltara a dormir, depois de jogar o nome da empresa no Google, contar à secretária a história da Graviola (com o adendo “criança doente”), descobrir que a cachorrinha fora levada para uma construção em Porto Feliz (onde estava fazendo a festa dos pedreiros/sequestradores) e garantir que o mestre de obras a traria pra casa sã e salva na noite de quarta-feira.


Epílogo

A Graviola voltou pra casa por volta das oito da noite, alegre e frenética como no dia em que eu a conheci. A Rose deve ter chegado na minha esquina bem mais tarde do que isso. Como trabalho de dia e à noite estou dormindo, ainda não consegui encontrar a Rose para agradecer pessoalmente, coisa que meu pai já fez. Eu acho que ela não lê meu blog. Acho mesmo que nem acessa internet. Estou devendo um “obrigada” de todo tamanho pra essa mulher.


foto: Caroline Riley


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quarta-feira, 4 de abril de 2012

Eu quero agora



A sábia me disse que não é exatamente a pressa a verdadeira inimiga da perfeição. A pressa, ela disse, é só disfarce. Pressa não é sentimento: é fazer. É a reação imediata de quem esbarra no tempo. Pressa é atropelar as próprias pernas exigindo do tempo que saia da frente.
A sábia, quando está comigo, conversa com as minhas ansiedadezinhas. Ela lhes diz: “pra que a pressa, se o futuro é a morte?”. E segue explicando, as palavras tranquilamente cadenciadas, que o destino não tem graça sem as cores e os cheiros do caminho. Cada palavra que a voz doce da sábia diz é como uma caixinha, que se abre e revela outra caixinha, que se abre e revela outra caixinha, que se abre e revela outra, sempre outra. Eu me sento diante dela de pernas cruzadas como que para escutar a professorinha do primário, e as palavras que ela diz vão ficando mais e mais gordas de sentido, e tão bonitas que me fazem esquecer que antes eu tinha pressa. Então eu fico inteira no único tempo que tenho: o presente.
A sábia mora dentro de mim.

Ocorre que às vezes ela se cansa, porque eu nunca aprendo. Ou será que, pelo contrário, me superestima e pensa que não preciso mais dela? O fato é que de tempos em tempos a sábia escolhe uma caverna – dentro de mim tem muitas cavernas – onde por tempo indeterminado se recolhe com toda a sua sabedoria. Ela hiberna, e então se faz inverno em mim. Inverno de mim, de ansidadezonas efervescentes.
Onde você foi, sábia? Acorda logo, me ajuda! Eu tenho pressa de te encontrar!
 

Passagem do tempo, pressa


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terça-feira, 20 de março de 2012

Das estações

Hoje começou mais um outono. Toda vez que uma estação começa somos forçados a decidir se a que entra é ou não a nossa favorita. Os adeptos do inverno alegam que nele as pessoas ficam mais elegantes, que o inverno é mais romântico, melhor pra dormir de conchinha e tomar vinho tinto. Do verão, diz-se que é a mais alegre das estações, e que as pessoas no verão também são assim, mais pra fora. Que a luz do verão, que o calor do verão, que a praia, que as férias, que – ah! – o horário de verão...

A menos que você viva na Europa ou em Nova Iorque o outono e a primavera ficam um pouco prejudicados na disputa. Aqui eles são vistos um pouco como meio termo, como transição, coitados. É quase como se fossem não muito mais do que um rastro da estação que passou, ou apenas o tempo para que o verão, se primavera, e o inverno, se outono, possam repousar e se arrumar para mais uma estréia. A pessoa que escolhe o meio termo normalmente é vista como sem sal. Gostar do verão ou do inverno é pra quem tem personalidade.

Percebi, um segundo antes da minha decisão, que as estações não me consultam pra decidir qual será a do mês seguinte. Nem se pudessem, eu acho, mudariam seu curso pra respeitar a democracia. Não é justo, razoável, aceitável tamanha falta de reciprocidade! Eu quero que meu voto seja ouvido, oras! Quero relevância para o meu pensar! As estações não têm o menor respeito pela minha opinião – e nem pela sua, eu sinto dizer.

Pois eu voto nulo: não vou escolher estação alguma! Vou é escolher minha noite de hoje, mas ela fatalmente será uma noite de outono.

Atumn in New York - Ella & Louis



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quinta-feira, 8 de março de 2012

Impressionismo

De todas as coisas dessa noite bela, muitas me impressionam. Que eu não goste tanto assim de comida tailandesa, essa é uma das coisas impressionantes. Quantas risadas eu dei e, mais ainda, quantas dessas tantas foram gargalhadas generosas. [Quem me conhece sabe quantas felicidades eu já menti]. E as histórias do Carnaval?! Que lindas, que ricas! Que novo isso do prazer de contemplar! Porque não eram minhas as histórias incríveis, e nem nunca haviam sido minhas – eu hoje percebo. Mas agora está delicioso coadjuvar. E, além disso, Letícia, daí a César o que é de César!, teus amigos merecem o crédito do seu olhar, porque sabem protagonizar histórias, e que honra ser coadjuvante de tais estrelas!
Nada mais de estrelas, chega disso. Amanhã é Lua cheia. Lembrei disso subitamente quando, impressionada, constatei não a Lua, não as marés, não o meu ser mulher de quase 28. Era o desenho da minha sombra que eu não acreditava. Nem eu sou assim tão nítida! Ler um livro, protetor lunar? Devia ser de sol aquela definição inescrupulosa de contornos, mas vive ainda de penumbra, de prateados. Que bom então que eu possa essa minha imagem no silêncio, na companhia plena dos meus cachorros e no verde escuro de todas as minhas plantas.



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segunda-feira, 5 de março de 2012

O jazz irreverente do Pink Turtle

Necessário para uma melhor qualidade de vida conhecer essa banda. Se você tem preguiça das minhas palavras, pula e vai direto ouvir o som, porque eu ainda vou contar como conheci os caras. Mas ouça. Porque toda vez que eu mostro a reação invariável é de "meu deus o que é isso???". 

Gente, foi a maior boiada da minha vida. Um francês me levou pra um festival de jazz em Enghien les Bains, um subúrbio de Paris. Olha o cartaz do festival, com presença ilustre do magnífico Hamilton de Holanda respresentando o Brasil.

poster festival de jazz

Bom, daí que, pra encurtar a história, uma mineira nos ouviu - eu e o francês - hablando português. Ela veio puxar papo, simpatia tipicamente mineira, e no fim das contas revelou sua verdadeira identidade de esposa de um dos caras do Pink Turtle. E, plin!, nos presenteou com 2 ingressos! Ufa, porque 50 euros cada um não dava nem pra pensar. E foi assim que, meio sem querer, eu fui parar no show dessa banda incrível da qual eu nunca tinha ouvido falar! Super irreverente e dançante o show dos caras! Ah, e não pensem vocês que eles são americanos! São francesinhos, gente, delícia que pude arranhar mon français com o marido da mineira! 

Aqui você ouve a versão dos caras pra Maniac. Aquela mesmo, do filme Flashdance. Tá no disco Back Again.


E essa é uma versão deliciosamente cool jazz de Hotel California que está no primeiro disco dos caras, o Pop in Swing. Ouça no máximo!


E fica a dica: sempre que forem ao exterior, não deixem de checar a agenda de shows e festivais do lugar pra onde vão!


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